terça-feira, 21 de fevereiro de 2012



Que a saúde se difunda sobre a terra
- (Eclo 38,8)


A saúde humana é um dos direitos fundamentais do ser humano. Ela não acena à ausência de doenças físicas, mas a qualidade de vida em todos os seus aspectos, no sentido do bem-estar pessoal-social, incluindo todas as dimensões humanas. Tanto os fatores externos, quantos os internos, influenciam e são fundamentais para se viver uma vida plenificada de saúde ou não.
Os fatores externos funcionam como estímulos sobre as emoções, como por exemplo, as condições sociais, históricas, econômicas, ambientais, alimentação, relações de convivência que se estabelecem no cotidiano. Eles influenciam profundamente a vida humana, mediante aos fatos desagradáveis – situações traumáticas, acidentes, perda de um ente querido por morte ou afastamento, roubos, perda do emprego, perda da liberdade. E pode até mesmo ocorrer devido a fatores externos positivos, desde que impliquem em uma mudança brusca no estilo ou na qualidade de vida de uma pessoa. Enquanto que os fatores internos funcionam como disposições
mentais e posturas internas que levam as pessoas a reagirem mais ou menos intensamente aos fatores externos do quotidiano. Essas posturas internas, adquiridas ao longo da vida, são ensinadas a partir do berço, na comunidade onde o indivíduo habita e onde ele precisa sobreviver socialmente, economicamente e filosoficamente. Nem sempre, os desejos internos combinam com as imposições sociais, e isso gera um conflito que, se não for identificado, tratado e modificado, pode evoluir para sintomas físicos.
A Educação é outro aspecto, de profunda importância para a vida humana, que além de humanizar, ela auxilia a pessoa, desde seu nascimento, a conhecer limitações e capacidades pessoais, para saber lidar e enfrentar as intempéries da vida, tornando-se fortes emocionalmente,
com atitudes positivas diante de fatores externos, principalmente os acidentais, evitando assim desencadear sintomas negativos no organismo humano. Uma educação centrada na formação da consciência - humana e planetária referendada sobre pilares fundamentais alusivos a valores, ética, cidadania e espiritualidade, no sentido de aprender a: conhecer, conviver, ser e fazer. Embora o conceito saúde tenha sido ampliado no sentido da real compreensão, em termos de direitos, atualmente no Brasil, o quadro da saúde pública é bastante crítico. A própria Igreja entende que saúde ultrapassa as fronteiras da saúde curativa, pois os aspectos psicológicos, afetivos, cognitivos, sociais e espirituais fazem parte da saúde da integralidade humana. É também neste sentido que a Igreja lança a Campanha da Fraternidade deste ano, provocando uma rica reflexão sobre saúde pública.
No Brasil, a Campanha da Fraternidade surgiu pela iniciativa de três padres responsáveis pela Cáritas Brasileira que idealizaram – em 1961, uma campanha para arrecadar fundos para as atividades assistenciais e promocionais da instituição e torná-la autônoma financeiramente. Esta atividade foi chamada Campanha da Fraternidade e realizada pela primeira vez na quaresma de 1962, em Natal – Rio Grande do Norte, com adesão de outras três Dioceses e apoio financeiro dos Bispos norte-americanos. No ano seguinte, dezesseis Dioceses do nordeste realizaram a campanha sem êxito financeiro, mas tornou-se embrião de um projeto anual que perdura até nossos dias. Assim a Campanha da Fraternidade tornou-se especial manifestação de evangelização libertadora, provocando, ao mesmo tempo, a renovação na vida da Igreja e a transformação da sociedade, a partir de problemas específicos, tratados à luz do Projeto de Deus.
Em 1964, a Igreja católica lançou a primeira Temática da Campanha da Fraternidade: “Igreja em renovação” e como Slogan: “Lembre-se: você também é Igreja”. A partir de então anualmente a Igreja lança novas campanhas, coordenada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), com o objetivo de despertar a solidariedade dos fiéis e da sociedade em relação a um problema concreto que envolve a sociedade brasileira, buscando caminhos de solução. A cada ano é escolhido um tema, que define uma realidade concreta a ser transformada, e um lema, que explicita em que direção se busca a transformação.
Neste ano de 2012 a temática abordada é: Fraternidade e Saúde Pública. Tendo como slogan: “Que a saúde se difunda sobre a Terra” (Eclo 38,8), cujo objetivo é refletir sobre a realidade da saúde no Brasil em vista de uma vida saudável, suscitando o espírito fraterno e comunitário das pessoas na atenção aos enfermos e mobilizar por melhoria no sistema público de saúde. A saúde é para a vida, um bem supremo. Hoje, mais do que nunca, a sociedade está posta a todo tipo de riscos, e a saúde humana, não depende restritamente apenas da responsabilidade dos órgãos referendados aos artigos 196 a 200 da Constituição Federal de 1988, mas também pela consciência de cada cidadão/ã pelas suas próprias escolhas e opções de vida que fazem.
Todos sabem e conhecem a dinâmica da vida moderna, com todos os avanços... Mas paralelamente a estes, também surgem desafios cada vez maiores relacionados à saúde: doenças até pouco tempo desconhecidas como: o estresse, a depressão, bipolar, fragilidade emocional, inseguranças, sentimentos, ansiedades, síndromes, sobrepeso, a AIDS, consumo de drogas, entre outras. Além disso, o aumento da expectativa de vida, a diminuição do índice de natalidade e o consequente aumento da população idosa fazem com que doenças crônico-degenerativas e o câncer sejam cada vez mais preocupantes.
O hedonismo e o individualismo também acabam falando mais alto, e muitos não dedicam tempo para a reflexão, interiorização, escuta da voz do Supremo. A falta de cultivo do silêncio, do cuidado para pensar na própria saúde interior, em consequência do corre-corre do mundo moderno, acabam, de um lado gerando stress e depressão, muitas, vezes irreversíveis, e do outro, as diversas atrações que envolvem a vida centrada na televisão com suas perversidades encetando programas sarcásticos, desvirtuando inocência de tantas crianças; bebedeiras; festas em excessos, bandalheiras, ociosidade, violência, mortes, entre outros aspectos. Tudo isso fazem parte da saúde pessoal e pública. O lazer é o companheiro imprescindível e necessário para a boa saúde. Porém a falta de critérios, de referenciais saudáveis que dão suporte e sentido à vida, pode desvirtuá-la de tal modo, de poder banalizar, relativizar tudo; e tornar tudo permissível, inclusive a manipulação da própria vida e a do outro, por isso matam com tanta facilidade.
Para tanto, é preciso disseminar o conceito de bem viver e sensibilizar a população para a prá­tica de hábitos, de vida saudável, uma vez que o primeiro responsável por uma vida saudável é a própria pessoa, por meio de alimentação adequada, práticas de atividades físicas e respeito aos seus limites individuais.
Os seres humanos são criaturas dotadas de capacidade criativa, de relacionamento, interatividade e aprendizagem. Embora no contexto atual, marcado pela complexidade, a sociedade e desafiada a se superar e se humanizar constantemente. E se tornará uma nação global de relações plurais, na medida em que responder positivamente à ampla variedade dos seus desafios.
A referência bíblica: "Que a saúde se difunda sobre a terra" (Eclo 38,8), além do comprometimento com a vida humana, chama atenção também para a vida planetária envolvendo a todos neste compromisso: eu, você, nós. Lembrando que doença não é sinônimo de pecado e muito menos de castigo, mas muitas vezes consequências de nossos próprios atos que praticamos irresponsavelmente. Tanto a vida humana, quanto planetária é interdependente, numa efetiva relação dialética, pois ao mesmo tempo, que uma influencia a outra, uma depende da outra para viver com saúde em plenitude. Se cada um se esforçar para plagiar as atitudes de vida de Jesus, que veio para plenificar a vida (Cf 10.10), hoje o mundo seria um paraíso perfeito e repleto do sonho de Deus criador. Que sejamos motivadores do bem-estar pessoal e comunitário, sentindo-nos responsáveis uns pelos outros.

"Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas" - (Sant Exupery)


Delia Terezinha Lagni - SMR